Aumento da expectativa de vida amplia prevalência de enfermidades crônicas e exige planejamento estratégico de longo prazo
O Brasil segue as estatísticas globais de envelhecimento, e esse movimento demográfico acende um alerta sobre as doenças cardíacas, que acomete em sua maioria a faixa etária dos idoso. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 14 milhões de brasileiros convivem com alguma doença cardiovascular, já no conjunto das doenças crônicas não transmissíveis, essas condições respondem por aproximadamente 45% das mortes no mundo e a principal causa de óbito no país.
O cenário ganha contornos ainda mais relevantes quando se observa a relação entre idade e saúde do coração. Segundo o Relatório de Estatística Cardiovascular do Brasil, publicado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia em 2023, a prevalência dessas doenças cresce de maneira consistente com o avanço da idade. Isso coloca o envelhecimento populacional no centro do debate sobre o futuro da assistência em saúde.
Para Hans Dohmann, médico, mestre em Cardiologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, o processo de envelhecimento não pode ser analisado de forma isolada. Ele está diretamente associado a outros fatores de risco que, combinados, aumentam a probabilidade de eventos cardiovasculares.
“O envelhecimento está relacionado a mudanças estruturais e funcionais no sistema cardiovascular. Com o tempo, essas alterações podem comprometer o funcionamento adequado do coração, especialmente quando somadas a fatores como tabagismo e diabetes”, afirma Hans Dohmann.
Pressão crescente sobre o sistema de saúde
Projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, até 2070, o país terá cerca de 75 milhões de pessoas com mais de 60 anos, o que representará mais de 37% da população. Esse novo desenho demográfico impõe desafios concretos para o sistema de saúde, tanto público quanto privado.
Hans Dohmann avalia que o impacto será amplo. “O aumento da expectativa de vida, combinado à maior incidência de doenças crônicas, tende a elevar a demanda por consultas, exames, internações e acompanhamento contínuo”.
“Esse é um cenário que exige planejamento de longo prazo. O sistema de saúde precisa estar preparado para atender uma população mais idosa, com maior necessidade de cuidados permanentes, uso contínuo de medicamentos e maior frequência de hospitalizações”, completou Hans Dohmann.
Segundo o médico, o custo também entra na equação, pois doenças cardiovasculares, por sua natureza progressiva, frequentemente demandam tratamentos prolongados e intervenções complexas, o que pressiona orçamentos e exige estratégias mais eficientes de gestão e prevenção.
Fatores de risco e sinais de alerta
Como médico e mestre em cardiologia, Hans Dohmann aponta que o envelhecimento é um fator importante, porém há um conjunto de condições que contribuem para o desenvolvimento das doenças cardiovasculares e que, em muitos casos, podem ser modificadas.
Entre os principais fatores de risco estão o tabagismo, níveis elevados de colesterol, hipertensão arterial, obesidade, estresse, depressão e diabetes. Pessoas com diabetes, por exemplo, apresentam um risco maior de sofrer infarto quando comparadas à população geral.
“As doenças cardiovasculares se desenvolvem ao longo do tempo e nem sempre apresentam sintomas nas fases iniciais. Por isso, é fundamental atenção a sinais como dor ou desconforto no centro do peito, nos braços, ombro esquerdo, mandíbula ou costas”, explica Hans Dohmann.
Além desses fatores tradicionais, o médico chama atenção para mudanças recentes no estilo de vida da população. O aumento do sedentarismo, a alimentação inadequada, o consumo de álcool e o uso de dispositivos eletrônicos para fumar já produzem efeitos mensuráveis na saúde cardiovascular.
“A combinação desses hábitos pode prevenir o surgimento de doenças cardíacas. Existe o risco de termos uma população que adoece mais cedo, com quadros de hipertensão, diabetes e obesidade surgindo em idades cada vez menores”, alerta.
Prevenção e políticas públicas no centro da solução
Diante desse cenário, a prevenção aparece como eixo central. Embora fatores genéticos e o próprio envelhecimento influenciem o desenvolvimento das doenças cardiovasculares, o estilo de vida segue como um dos principais elementos de proteção.
Hans Dohmann destaca que mudanças consistentes no dia a dia podem reduzir de forma significativa o risco de adoecimento. Alimentação equilibrada, prática regular de atividades físicas, controle do consumo de álcool, abandono do tabagismo e qualidade do sono estão entre as medidas mais eficazes.
“É possível envelhecer com qualidade de vida. O estilo de vida saudável tem um papel decisivo na prevenção e no controle das doenças cardiovasculares ao longo dos anos”, afirma.
No entanto, Hans Dohmann afirma que a responsabilidade não recai apenas sobre o indivíduo, pois o enfrentamento do problema exige ações coordenadas e políticas públicas estruturadas. Investimentos em atenção primária, campanhas educativas e ampliação do acesso a diagnósticos precoces são apontados pelo médico como caminhos essenciais.
O especialista também defende uma abordagem mais ampla, que considere fatores ambientais e sociais, questões como poluição, acesso a alimentos de qualidade e desigualdades no acesso aos serviços de saúde influenciam diretamente os indicadores cardiovasculares da população.
“O desafio é complexo e envolve diferentes camadas de atuação. É preciso integrar prevenção, diagnóstico, tratamento e políticas públicas que sustentem essas ações no longo prazo”, afirma.
A combinação dessas estratégias pode reduzir a carga das doenças cardiovasculares e contribuir para um envelhecimento mais saudável. “Em um país que envelhece rapidamente, antecipar soluções deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade concreta”, concluiu.